Como surgiu o Rock’n’Roll em União da Vitória?

Facebook
WhatsApp
Email
Twitter

(Artigo publicado originalmente no Rock’n’Zine 16 – Abril – 2023)

Caramba! Que viagem no tempo…  Estou mareado e, no entanto, pleno de prazer por toda essa nostalgia que essas lembranças me trazem…

O ano é 1986, 1987, algo assim. Na boleia dessa máquina do tempo, consigo me ver andando pelas ruas, magrelo, cabeludo, num belo sábado, com vários discos de vinil sob o braço. Uma tattoo “homemade” e muitos patches bordados na calça e, caso frio esteja, na jaqueta, que também ostenta, nas costas, uma pintura, feita à mão, com a capa de algum disco do Iron Maiden ou do Megadeth. O destino é a casa do Beto, ou talvez do Jilo, do Kiko, ou quem sabe do Caveira. Nosso passatempo é ouvir heavy metal e hard rock enquanto trocamos ideias sobre as bandas que aparecem nas capas de revistas como a Rock Brigade e a Metal. Saxon, Loudness, Slayer, Ozzy, Scorpions. Nossa “formação” foi de altíssima qualidade.  Não temos Spotify, Youtube, nem sequer celulares… A internet chegaria, no Brasil, apenas alguns bons anos depois.

Antigo calçadão da Manoel Ribas

Os citados discos de vinil eram conseguidos em algumas das poucas lojas locais, como a saudosa Alesom, no antigo Calçadão (que fizeram o favor de estragar). Também havia o Ponto Real e a HM. Era de praxe gastar um tempo, na Alesom, olhando as capas dos discos e, quando algo parecia agradar, pedíamos que o tal disco fosse colocado na vitrola. Alguns poucos segundos de cada faixa já nos davam ideia do que encontraríamos naquela bolacha. Lembro, com detalhes, que foi assim que adquiri o vinil Metal Heart, do Accept. Outra opção era os catálogos que vinham nas já citadas revistas. Bastava preencher um cupom, enviar e, posteriormente, retirar no correio, pagando um tal de vale postal. Esses discos (um ou dois que conseguíamos comprar por mês) eram exaustivamente ouvidos, a ponto de conhecermos a sequência das faixas dos lados A e B. Se reclamo dessas condições? Nem um pouco. Caso voltar no tempo me fosse permitido, apreciaria cada precioso instante de uma época que, hoje, considero um privilégio ter vivido.

Além dos medalhões internacionais que posavam nas capas das revistas, também podíamos conhecer as bandas nacionais. Dorsal Atlântica, Vodu, Salário Mínimo, Azul Limão, A Chave do Sol e, é claro, o Sepultura, destacando-se entre uma infinidade de outras. O acesso a material de bandas mais underground era, obviamente, mais difícil, porém, com o hábito da troca de discos e revistas, acabávamos por conhecer muita coisa.

Mas havia uma galera que não se contentava em apenas ouvir um som. Essa rapaziada queria também tocar, produzir suas próprias músicas, ensaiar em suas garagens e, quem sabe (por que não?) tornar-se um Metallica da vida. Eu também assim o queria mas, apesar de ter minha(s) guitarra(s), acabei não levando esse sonho adiante.

Não havia Guitar Pro para tirar as músicas… Nenhum vídeo com tutorial detalhado… Aliás, as poucas revistas com tablaturas encontradas nas bancas quase só traziam Legião Urbana, Raul Seixas e U2… Como faço, então, para “tirar” Raining Blood, do Slayer? Se vira… Existe um tal de “tirar de ouvido”, Já ouviu falar nisso?

Pois bem… Antes de prosseguir, preciso pedir desculpas a tantos nomes (de pessoas e bandas) que não serão citados nesse texto. O que você vai ler, a partir de agora, vem das memórias gastas de minhas vivências e, também, de depoimentos de algumas poucas pessoas com as quais consegui contato. Alguns não trabalham mais com música, outros já não vivem mais em nossa região. Realmente, é muito difícil conseguir material daquele tempo. As fotos são de má qualidade e escassas, assim como escassas são informações mais detalhadas das bandas que, naquela época, agitavam a cena roqueira nas gêmeas do Iguaçu. Sem contar que o espaço aqui, nesse fanzine, é bastante limitado. Para se ter um cenário mais completo demandaria bastante tempo, trabalho, pesquisa, e poderíamos, quem sabe, ter um livro. Olha só que ideia bacana… Quem sabe??? Ou mesmo aqui, no Rock’n’Zine, uma parte 2… 3… A nossa história é muito rica.

Banda IMAGEM

Além da rotina de ouvir os discos, às vezes ficávamos sabendo que, aqui ou ali, havia uma garotada ensaiando. Logo alguém propunha dar uma olhada e, na maior cara de pau, chegávamos para conferir. Assim eram nossos rolês.

Numa dessas ocasiões, encontramos a banda IMAGEM. Os caras ensaiavam (pelo menos na época em que os conheci) num barracão de igreja ali no bairro São Joaquim. Lembro bem do Adi Muller (guitarra e vocal) e do Marco Rockembac (baixo). Used to Love her, do Guns, era um dos covers executados. Aliás, é a única canção cover que recordo desses ensaios. Eles também tocavam algumas composições próprias. Os caras eram piás da minha idade (16, 17) mas já mandavam muito bem. Eu tentava aprender a tocar e arriscava tirar, aos trancos e barrancos, uma das músicas que ouvia nos ensaios. Lembro até parte da letra: “Não deixei marcas, pegadas nem vestígios…” Essa canção começava com uns dedilhados legais e depois descambava em power chords nervosos, uma coisa meio punk.

Uma das poucas fotos da Banda Imagem

Consegui contato com o Adi Muller, hoje morando em São Paulo. Trocamos ideia pelo Whatts App e ele me ajudou muito com informações para esse texto. Me falou do Marcos Longui, segundo batera da banda (o primeiro foi o Lindomar), com quem também pude conversar. Além do Marco Rockembac, a banda também tinha o Danilo numa segunda guitarra (imagino que tenha entrado posteriormente, pois não lembro dessa formação naqueles ensaios).

A banda Imagem, durante uma existência que não sei precisar (3 ou 4 anos), chegou a se apresentar em alguns eventos na região e também fora, como o Festival da Canção, acontecimento bastante comum na época. Em uma dessas oportunidades, em Pato Branco, Paraná, a banda chegou a conquistar um terceiro lugar entre as bandas participantes. Observe o cartaz promocional do concerto, cartaz que o Marco Rockembac guarda até hoje.

Conversando com o Adi, algo que me chamou a atenção é que, para eles, era mais fácil compor músicas próprias do que executar covers. Provavelmente pela escassez de recursos e informações já mencionada no início dessa matéria. Também era caro adquirir instrumentos de qualidade (nisso não mudamos muito), assim, era comum que as bandas não tivessem um arsenal muito potente. Em se tratando de guitarras, marcas como Golden, Giannini, Dolphin e Jennifer predominavam, às vezes até as Tonantes quebravam o galho da piazada. Podemos dizer, caindo em um ditado popular, que aquela galera tirava leite de pedra.

Uma pena que não há registros sonoros do trampo da banda. Se alguém, naquele tempo, quisesse gravar um ensaio, o teria feito em fita K7 e, hoje, seria praticamente impossível essa(s) fita(s) ainda existir(em).

O evento em Pato Branco foi, talvez, a última apresentação da banda Imagem que, então, cessou atividades.

 

Prisioneiros da Consciência, Víscera e Sótão

Esse bloco da matéria trará, concomitantemente, três bandas, pois a história de todas as três tem ligação direta com uma mesma pessoa: Cézar Alves do Amaral, hoje na Revival Songs (Rock’n’Zine 14).

O Cézar é um dos músicos mais conhecidos e competentes em nossas cidades gêmeas. Desde sempre atuando em prol da música, participou de muitas bandas e projetos e, entre tantos trampos, destaco as bandas Prisioneiros da Consciência, Víscera e Sótão.

A Prisioneiros da Consciência foi formada por volta de 1986, e esteve ativa até 1989. Era uma banda que contava com o Cézar na guitarra, Luciano Zimmer nos vocais, Jovino Schindler no baixo e Marco A. Ribas Saldanha (Marcão) na bateria.

O som transitava entre o metal e o punk. Não executavam covers e tinham somente músicas próprias. Apresentaram-se em eventos em Porto União da Vitória, caçador, Canoinhas, a maioria em colégios. Segundo o Cézar mesmo disse, faziam mais ensaios do que apresentações, mas tinham muitas músicas e um público que ia assistir aos ensaios. O Prisioneiros teve um primeiro cantor, antes do Luciano, que se chamava Edson. Ele acabou falecendo recentemente, em 2021.

Assim como a banda Imagem, também não há registro sonoro e, pior ainda, nenhuma foto da banda, em algum ensaio ou evento.

O Víscera foi uma banda que teve, em sua formação, praticamente os mesmos caras do Prisioneiros da Consciência. A única mudança foi a troca nas quatro cordas, entrando Jocivaldo de Oliveira no lugar deixado pelo Jovino. O som era baseado no punk rock e tinham composições próprias. Ensaios eram realizados na casa do Cézar e, em 1989, entrou um segundo guitarrista, o Danilo M. Moreira. Apresentaram-se em eventos nos Colégios Túlio de França e Lauro Muller Soares, além do bar Grafite, e também na cidade de Palmas. a banda existiu até 1991. Fiquei sabendo, através do Luciano Zimmer, que o Kiko possui uma gravação, em K7, de ensaio da banda Víscera. Sim, o Kiko, aquele citado no início da matéria. Conversei com ele e a info foi confirmada. Essa gravação realmente existe. Material raro.

Em um evento realizado em um bairro aqui em União da Vitória, um morador, incomodado pela barulheira, invadiu o Centro Comunitário, A CAVALO… Isso mesmo, montado em um cavalo… “Sim, mas nós tudo de boa, o cara saiu e continuamos…Lembro como se fosse hoje” (Cézar).

Posteriormente, entre idas e vindas, Cézar (agora no baixo) e Marcão, ambos remanescentes da Prisioneiros e Víscera, unem-se novamente para criar a banda Sótão. Paulinho Chapecó ficou com o violão/guitarra/ harmônica e o vocal ficou por conta do Douglas, que cheguei a conhecer pessoalmente quando no exército (eu era recruta e ele sargento). Lembro que o Douglas era fanzaço do Dave Lee Roth.

A banda Sotão tinha esse nome pelo simples fato de ensaiarem em um. Tocavam alguns covers de bandas como legião Urbana e também tinham composições autorais, seguindo o estilo da banda citada. Lembro bem que eles chegaram a gravar suas músicas próprias (gravação realizada em Curitiba). Lembro até da capa do disco, que trazia um desenho de duas mãos entrelaçadas, assim como lembro da música de trabalho dos caras: “O menino mergulhou no rio/em busca de um trabalho yeah…” acho que era isso… Infelizmente, nada encontrei para ilustrar a banda Sotão. Nem eventos, nem ensaios, nem a capa do disco… É… Esses tempos sem internet, infelizmente, tinham esses efeitos colaterais indesejáveis… Que pena!!!

Cézar destacou, dentro da carreia do Sótão, uma antológica apresentação que fizeram no McDalbó. Segundo suas palavras, o evento lotou tanto que a polícia teve que parar o show (?)…

Ainda em relação à banda Sótão, é conveniente citar que o Douglas, junto ao Martins, outro tarimbado músico daquela época, abriu um bar chamado King Blues Bar, ali atrás do Cine Ópera. Conheci o ambiente que foi moldado para agradar apreciadores da boa música. O empreendimento, porém, não teve êxito e o bar foi fechado com apenas alguns meses de atividade.

E, falando em bar, Cézar também me lembrou que, junto ao clube Concórdia, havia o Bar Grafite. Nesse bar foi formada a Banda Grafiti, da qual ele também fez parte junto a um timaço de músicos, como o Martins. Tocavam de bossa nova a rock. Essa banda deu origem, posteriormente, às bandas Alma Nua e By Brasil.

A banda Sótão acabou, definitivamente, quando o sargento Douglas foi transferido para o Rio Grande do Sul.

 

Ricardo Salsa, o cara de muitas bandas

Assim como o Cézar e o Marcão, Ricardo Salsa também é um dos músicos mais conhecidos daqui, tendo iniciado o contato com a música ainda adolescente, ali pelo final dos anos 80, estando ativo na área da música até os dias de hoje.

Em conversa que tivemos, ele me contou sobre sua participação em muitas bandas iniciando no fim dos anos 80 e, principalmente, nos anos 90. Muitas mesmo. Acho que, para o Salsa, só faltou mesmo foi integrar o Whitesnake…

Entre tantas bandas (Estilo Próprio, Cadeira Inglesa, Blecaute, Aero 1, entre outras) destaco, aqui, a Flowers for Dead, justamente por estar no período paleolítico que é foco dessa matéria. Talvez as outras fiquem para uma “parte 2”. As informações que seguem vieram também da conversa que tive com o Álvaro Ribas.

Cadeira Inglesa, uma das bandas do Salsa

Flowers for Dead era Salsa no baixo, Álvaro Ribas na guitarra, Cleverson Joly nos vocais e… Nem o Salsa nem o Álvaro lembram quem pilotou as baquetas… Pobres bateristas, sempre esquecidos…

Os covers executados iam de Sepultura a Pink Floyd. A Flowers tinha material autoral, escrito em português, seguindo uma linha mais voltada ao punk rock. A primeira apresentação da Flowers foi no saudoso Nakas Lanches. A banda apresentou-se também em Bituruna e fez um grande sucesso lá, tanto que, segundo me disse o Álvaro, chegaram a fazer um outdoor com o logo da banda na cidade. Ainda segundo o Álvaro, um grupo de jovens de uma igreja de Bituruna convidou a banda para participarem de um concurso de bandas gospel em Contenda. A banda compôs uma canção exclusivamente para esse evento.

Infelizmente, também não há material de nenhuma natureza da banda Flowers for Dead, sequer uma foto… Fazer o quê?

 

Por enquanto é isso, galera… Perdoem as infos que não chegaram a ser citadas e os possíveis erros que possam ter ocorrido.

E, jovens, nunca desmereçam ou subestimem aquele tiozão que é professor, taxista, corretor de imóveis, ou segurança… Por detrás de empregos e carreiras tão triviais, dos ralos cabelos e das barriguinhas salientes, podem estar escondidas importantes raízes da história do rock’n’roll que, hoje, você tanto curte…

Respeitem os clássicos!!!

 

Sérgio Kuns

O quarto compromisso

O quarto compromisso Dê sempre o melhor de si.   Dê o melhor de si em todas as ações de sua vida, independente do que